Holyster, nada de muito especial para se tornar um personagem significativo na história de Locke.



Locke conheceu Holyster quando ele voltou para Midgar... Holyster estava em um bar nos suburbios de Midgar... Locke estava morrendo de sede e resolveu entrar no buteco para tomar uma Abracola gelada... Locke sentou-se no balcão e viu um sujeito com um sobretudo laranja e um chapéu de cowboy sentado em uma das poucas mesas que tinham no estabelecimento... Esse tipo de coisa é normal em Midgar... Pessoas vestidas de maneira engraçada é mais comum do que pessoas vestidas normalmente... O que chamou a atenção de Locke foi o fato de Holyster estar acompanhado por duas belas garotas... Depois de dispensar uns vinte segundos da sua atenão, Locke voltou-se a sua Abracola... Seu pensamento vagou sem rumo e acabou parando em Sidney, a irmã de Henrique, um dos seus poucos amigos. Imaginou um beijo entre os dois e quando sua imaginação lhe entretia com uma sequencia que inevitavelmete ia acabar em sexo, Locke foi trazido de volta a realidade por um barulho de tiro.
Virou-se prontamente a fim de verificar de onde vinha o barulho. Quando Locke pousou seus olhos sobre a mesa de Holyster, viu que uma das garotas havia sido baleada...
Não que ele quizesse se envolver em mais um conflito, a experiencia com Alexandros semanas atrás tinham sido suficientes para uma vida toda, mas Locke tinha um "que" de herói e se envolveu. Holyster sacou um revolver cromado debaixo da mesa e acertou um tiro em um sujeito com terno, provavelmente o assassino da garota... Outro sujeito de terno sacou uma metralhadora e começou a atirar na direção de Holyster. Ele pegou o corpo inerte da garota morta e usou como escudo para a rajada de balas. Não ia demorar muito para o cadaver mostrar-se um escudo pouco eficiente quando Locke arremessou a garrafa de sua Abracola na cabeça do sujeito de terno. A garrafa se espatifou, deixando o homem com a metralhadora incosciente. O bar estava em panico, o baconista (e provavelmente dono do bar) pedia calma aos clientes... Holyster pulou na mesa e acertou um tiro bem entre os olhos do sujeito caido.
- Morre filho de uma puta !!! Levar bala no meio dos olhos é o que você merece !!! - disse Holyster enquanto recolocava sua arma no coldre. Em seguida virou-se para Locke. - Obrigado pela ajuda. Qual seu nome ???
- Locke... Locke Thundermind.
Holyster engoliu em seco.
- Você disse Locke Thundermind ???
- Sim. Por que?
- Hã... Precisamos conversar... Me acompanha para um drink ??? - disse Holyster dirigindo-se para a porta da saida. Tanto a garota que estava com ele quanto o dono do bar começaram a xingar e cobrar danos causados pela presença de Holyster ("Minha amiga morreu e agora você quer sair sem pagar ???Eu custo caro sabia ???", "Meu bar, meu bar, seu safado !!! Quem vai pagar os prejuizos ???)
Locke que estava extremamente intrigado com o sujeito, decidiu ver até onde aquela história ia.
Quando os dois chegaram em uma rua escura, Holyster sacou sua arma.
- Bom, eu estou em um serviço... Sabe, sou um atirador... Você já deve ter percebido. Eu sei que se não fosse a sua ajuda a alguns minutos atrás eu estaria morto... Aqueles caras da Yukioshi não são de brincadeira... Mas o caso é que estou em um trabalho que vale cinco milhões... Tudo que tenho que fazer é matar uma pessoa... Essa pessoa sabe demais... O caso é que meu alvo é um garoto... - Locke já estava começando a entender o que Holyster queria dizer. - Você acha que uma vida vale cinco milões ???
- Não. - disse Locke. - Uma vida não tem preço.
- Bom, para mim tem. E cinco milhões é muito mais que o valor de uma vida... Não mato ninguem por menos que dez mil... Mas o caso é que para mim, a minha vida não tem preço... E você a salvou. Por isso... Bom... Locke Thundermind, dezessete anos, cabelos prateados... Bom, Locke, você é o meu alvo...
Locke não pensou duas vezes: acertou um soco no estomago de Holyster, fazendo-o cair e vomitar toda a bebida da noite, e um pouco de sangue.
- Cof, cof... Ok, agora sei porque sua cabeça vale cinco milhões, você é realmente perigoso.
Locke avançou na direção de Holyster, mas o atirador foi mais rápido e apontou outra arma para a cabeça do garoto.
- Opa, opa, opa, calma ai garotão !!!
Locke ficou paralisado. Ele era rápido, mas não a ponto de desviar de um tiro a queima roupa.
- Você é forte e rápido, mas não muito esperto... Não sei se você entendeu, mas eu não pretendo te matar... Não dessa vez... Mas saiba que Alexandros Strife colocou sua cabeça a premio. Se eu fosse você não saia por ai anunciando seu nome a plenos pulmões !!! Tenha mais cautela... - Holyster baixou a arma e virou-se para apanhar a outra que deixara cair com o golpe de Locke. - Mas venha comigo...
- Eu não vou a lugar nenhum com você !!! Seu cachorro mercenário!
- Rapaz, eu não te convidei para um drink ??? Conheço um lugar onde servem um ótimo Martini... - argumentou Holyster com um sorriso no rosto. - E eles nem pedem sua identidade.
- Bom, eu sinto muito, mas vou ter que recusar... Fica para próxima vez que você tentar me matar !!! - e saiu correndo. Em poucos segundos Holyster perdeu Locke de vista.
- Aiai, pobre garoto... Se ele soubesse o que é ter um premio de cinco milhões pela sua cabeça. Mas enfim... - Holyster apontou o dedo indicador mantendo seu polegar levantado. - BANG! Da próxima vez eu te acerto, garoto... Tudo que eu preciso agora e tomar um drink e transar com uma bela puta !



 Escrito por C£C£L às 18h27
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Perdido (by Carneva...) [CONTO MANGA STYLE: comece a ler por baixo !!!]

6. Fim (ou "Faltou criatividade para um nome melhor")

 

Eu estava começando a gostar da Natália. De verdade. Isso lá pelo meio de janeiro.

Apesar de feia e chata e irritante e burra, ela não implicava comigo nem brigava, eu acho, porque na verdade não lembro direito do que a gente conversava.

Se todo relacionamento fosse levado assim, do jeito que eu levava, pelas duas partes, não haveriam brigas de casal, não haveria traições, não haveria amor também... mas há?

Só rolavam entre a gente uns beijinhos de nada, coisa super comportada, de vez em quando eu tentava uma inocente mão na ##### e ela tirava, isso me enchia mas eu ia me acostumando. Com o tempo a gente se acostuma com qualquer coisa.

Eu sei que a minha vida é uma bosta. Eu sei. Mas eu me acostumei com ela. Eu consigo levar. Se nenhum ou nenhuma ############# atrapalhar, eu me viro. Eu ando, eu fumo, eu bebo, eu esqueço. E tudo passa. Até Natália passou. Até o estupro, talvez armado, já está passando. Já estou esquecendo-o.

Nossos programas mais ousados eram uns passeios em parques ou praças quaisquer. Teve um vez que eu fui com ela num Shopping Center. Até eu que nunca cato mina sei que mulher e vitrine, por piores que sejam as duas, se atraem.

E olha roupa aqui, olha jóia ali, umas que nem pode comprar, nem se vender os dois rins, e ainda assim fica olhando, abismada, como se uma jóia ou uma roupa fosse mesmo grande coisa. E pergunta qual que a gente acha legal, ou qual dentre algumas é a mais bonita ou que fica melhor nela, e a gente tem que dizer, não importa que não dê a mínima e que tenha
vontade de dizer "todas são horríveis e em você iam ficar piores", tem de se dizer, "ah, acho que aquela azul" ou qualquer coisa assim. Pior que às vezes nem tinha nada azul lá aí você se ####. É preciso ficar esperto quanto a isso, na conversa dá pra se distrair, mas quando ela tá olhando vitrine é melhor não.

Tem horas que eu acho que eu sou ruim pra #######. Mas eu tenho meus motivos, ainda que seja muito fácil usar "eu tenho meus motivos" como desculpa. Alguma coisa como "meus pais morreram, então eu posso mandar todo mundo se #####". Essa é uma facilidade que não é todo mundo que tem na vida.

Isso me lembrou que eu nunca contei para a Natália que os meus pais morreram. Não lembro se ela perguntou, mas se perguntou eu devo ter inventado alguma história. Eu sou bem de dizer que eles estão morando na Itália ou na Suiça e que eu não fui porque eu gosto do Brasil. O que seria no mínimo uma grande mentira, porque eu odeio o Brasil!

Grandes passeios com a Natália. Bons mesmo, falando com sinceridade. Eram quase iguais aos meus passeios solitários, só que tinha a Natália falando sem parar como trilha sonora dos meus pensamentos e de vez em quando parávamos, eu de pensar e ela de falar, pra dar uns beijos.

Das poucas coisas que sinto falta dela é de dar uns beijos. Não que ela beijasse bem nem nada. É só que beijo, com qualquer ###### que for, é bom. Sei lá porque, mas é. Tenho uma teoria que é porque deve ser parecido com mamar no seio da mãe. Mas acho que não deve ter nada a ver.

Eu estou tentando lembrar de algum fato engraçado, trágico, enfim, alguma coisa que aconteceu conosco e que valha comentário, mas não me vem nada. É como se a gente só tivesse passado um tempo juntos, mas não tivesse acontecido nada.
Durante umas boas semanas foi assim. Absolutamente sem acontecimentos, porém cheio de acontecimentos.



 Escrito por C£C£L às 16h56
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Nada que parecesse importante, mas que na verdade eram coisas que até agora não voltaram a acontecer, tipo sentar num banco de praça e ficar observando uns pombos filhos da puta brigando por salgadinhos. Não lembro se aconteceu alguma coisa desse tipo, na verdade é só um exemplo de alguma coisa banal, que ainda assim não acontece mais, e que se acontecesse agora não teria graça, mas naquela época teria.


Mas é chegada a hora de contar a grande escrota que a Natália é. Bem que eu queria dizer que ela morreu ou coisa do tipo, mas já morreu tanta gente nessa ##### de história que até me sinto um psicopata.

Não, ela nem morreu, por mais que de todos que morreram, morrem ou podiam morrer era das que menos ia me entristecer. Ou não, dependeria muito de quando ela morresse. Se ela morresse depois daquela hora maldita em que ela me contou, com suspense pra caramba, que tinha voltado com o Dinélio, acho que eu ia mandar um "Chupa, #############!!" pra ambos. Por mais que seja o tipo da coisa cretina e de baixo nível a se dizer.

Pior que nem cheguei perto de sexo com ela. Foi bem um namoro de pré-adolescente, porque até os adolescentes hoje em dia são uns depravados, cheios das putarias. Só eu que não era, nem nunca fui, nem com as prostitutas. Eu sou um belo de um cuzão de #####. Boca-suja do #######, que que não consegue ser nem um pouco sacana.

Tanto, que quando a Natália chegou em mim toda cuidadosa, toda falando devagar, pensando bem se devia ou não dizer o que queria dizer, eu previa que era o fim e que eu não faria o menor esforço para segurá-la ou qualquer coisa do tipo.

Na minha mente, eu a xingava de todos os nomes que eu conseguia imaginar, mas para ela eu só disse algo do tipo "você sabe o que você faz" que era bem mais num tom de "eu até que mereço mesmo ser trocado por um cara com um nome ridículo" do que num de "vai viver sua vida então, sua putinha, não preciso de você, não!". Nessas, bem assim do nada, que ela saiu da minha vida para não voltar mais.

Eu entrei numa fase consumista depois que ela me deu um pé. Comprei umas roupas novas, tipo terno e chapéu de mafioso, que logo me roubaram e eu me arrependi um pouco.

Pior que não me deu vontade de ir num prostíbulo ou qualquer coisa parecida, e nem fui mais. Quando muito comprei umas revistas, mas quem se importa?

Segui minha vida da forma mais tosca que eu pude, voltei a gastar o mínimo possível, comecei a dormir o máximo possível, o dia todo em algumas ocasiões. Atingi meu recorde dormindo 30 horas seguidas, sem sequer a impressão de acordar. Comecei a viciar em pesadelos, que eram sempre do tipo que eu acordava e achava-os melhores do que a realidade.

Assim, logo resolvi reverter tudo e não dormir mais. Consegui ficar cinco dias seguidos sem dormir. Nem um cochilo. No sexto dia (bem que eu podia ter falado que fora no sétimo dia, pra dar uma de Deus...) eu cochilei sentado numa calçada. Acordei com a cara na sarjeta, sem camisa. Nem liguei por uns instantes e continuei lá. Depois percebi que minha cama seria mais confortável e voltei para casa.

Bati meu recorde e dormi 33 horas. Embora eu tenha acordado tão desgastado, que só mesmo um porteiro do prédio para me convencer que não haviam sido apenas nove horas. É o tipo da coisa que eu nem sei se é mesmo verdade. Mas é o tipo da diversão que acontece na minha vida, dormir trinta e três horas seguidas ou pelo menos crer nisso, ver uma mina não sendo estuprada noutro dia, ou no mesmo, sequer me lembro se não foi após acordar das 33 horas de sono. Provalvemente não, porque era uma bela coisa pra eu começar o meu relato: "Depois de três assaltos no mesmo mês, depois de uma garota me abandonar, depois de dormir 33 horas seguidas, ainda presencio um estupro forjado pra um cara catar uma mina!"

Depois da cena toda, do não-estupro, eu simplesmente voltei para casa, pensando na minha completa incapacidade de fazer qualquer coisa. Não por realmente não ser capaz, mas por achar que é mais fácil não fazer nada.

E o fato de eu realmente pensar isso me faz sentir um grande desprezo por mim mesmo. De tal modo, que eu sinto que minha situação atual é insustentável. Completamente. Me deprime o fato de ser como eu sou, de ter me tornado isso. Por mais motivos que eu possa usar, não é realmente justificável, se estragar a tal ponto.

A grande coisa que eu fiz até agora, depois do estupro fictício, foi uma bizarra amizade com os porteiros do prédio onde moro. A grande curtição da minha vida é ficar trocando uma idéia com os caras. Tem três tios que revezam na portaria aqui. O Roberto é o mais falante, fala um monte de coisa da família dele, é filha que engravidou de traficante, é filho que quebrou a clavícula fugindo da polícia, e tem até uns filhos mais gente boa que tão presos porque seqüestraram não sei quem.

Eu na verdade mais ouço do que falo, das poucas coisas que falei, a que mais rendeu foi o estupro. Cheguei contando pro Genésio, ficamos mó cara trocando idéia a respeito. Ele falou que tinha acontecido um negócio parecido com uma prima dele e que ele que tinha chegado salvando. Eu nem acreditei, mas não falei nada e deixei ele dar uma de herói. Mentiroso pacas esse Genésio. Por isso que, quando ele falou que tinha visto na TV essa história dos dois, Marcelo e Marcela, eu nem botei fé.
Mas daí eu confirmei com o Roberto e até com o Josafá, por mais que esse criolo seja mais calado do que qualquer coisa, até ele tinha visto, o que não deixa de ser estranho, porque se os três viram, quem é que estava na portaria quando essa cretinice passou na TV?

É bem o tipo da coisa que me intriga, mas que eu deixo quieto porque não dá pra ter umas conversas muito inteligentes com os porteiros. Quando muito saber os podres dos moradores do prédio e outras inutilidades do tipo.

Nessa fase pós estupro que não foi estupro, às vezes fico numas de me matar, dar uma de Válter, por mais estúpido que seja.
Porém na maioria das vezes quero deixar essa vida de ####### e arrumar um emprego. Podia bem ser de gari, atendente de lanchonete, alguma coisa bem escrota. A pedida mesmo era um de porteiro, é o tipo do negócio que eu arranjaria fácil se quisesse. Viver uma vida normal ou coisa do tipo, deixar de ser esse personagem tão grotesco.

Tem hora que eu até chego a pensar que a vida vale mesmo a pena de algum modo que eu ainda não descobri qual é. Ainda que eu não tenha agora a força de vontade suficiente para qualquer coisa, até o próximo Natal pode ser que eu melhore.



 Escrito por C£C£L às 16h55
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5. Esses pais que morrem!

 

Esse dia que ela me ligou foi o primeiro do ano? Acho que foi, sei lá, de repente me deu um branco. De repente me deu vontade de esquecer toda a parte boa (se é que dá pra chamar alguma parte de boa) e contar só as sacanagens da Natália para com a minha pessoa. Quem te viu quem te vê, dona Natália. Toda tosca, toda sem graça nenhuma, do nada se descobre a rainha da filha da putagem. #####. Essa Natália não presta.

Nesse dia, levei a Natália pra minha casa. Nunca tinha sido um grande lugar, mas estava o melhor possível naquele momento.
Ela estranhou muito o fato de eu não ter televisão. Para ela era impossível uma vida sem TV, desconectada do mundo, sem notícias, sem entretenimento, "sem nem uma novelinha", acho que ela chegou a dizer isso.

Ela falava um monte de coisas que me chateavam. Nem lembro direito, mas eram algumas coisas sobre a vidinha medíocre dela, do Dinélio, da Fabiana, da igreja, do ônibus quebrado, da gata que deu cria, daí pra baixo.

Ficava difícil ter algum tesão por aquela menina. As roupas dela não deixavam nada muito a mostra. Acho que ela era evangélica, mas nunca cheguei a perguntar. Não dava, e não dou, a mínima também. Ficava observando ela falar sem ouvir uma palavra, observando aquela boca, imaginando-a... ah, ####-se também. Não deu em ##### nenhuma mesmo.

Esse dia a gente sentou no sofá, ela falou, falou, falou, eu ouvi um pouquinho e ignorei a maioria do que ela disse. Me distraí lembrando de alguns fatos da minha vida enquanto ela falava ou enquanto nos beijávamos.

De vez em quando eu falava alguma coisa para parecer que eu estava prestando atenção, só pra enganar. Eu só usava metade ou menos da minha atenção para isso, então sei lá se eu dizia coisa com coisa. Não que a Natália dissesse coisa com coisa alguma vez. Os papos dela eram tão interessantes quanto observar o teto do meu apartamento, ou menos.

Ainda assim era estranho beijar uma garota. Em casa.

Minha adolescência inteira foi um desastre. Mesmo pra fumar eu fumava sozinho. O grupinho de fumantes do colégio era todo de filhos da puta, então eu nem mesmo fumava na escola. Muitas vezes o que eu fazia era catar uns cigarros da minha mãe e ir fumar dando um rolê por qualquer lugar.

Tinha mania de sair sozinho e de achar que todos eram idiotas. É, certas coisas nunca mudam.

Até que às vezes eu saía com outras pessoas. Me divertia com videogames, música, ou aquilo que eu chamava de música, aqueles rockzinhos americanos filhos da puta.

Quando meus pais morreram, na verdade na hora que me deram a notícia, o que é, pra mim, quando eles morreram, concluindo, nessa hora maldita eu tava no intervalo de uma aula de inglês, ouvindo uma porcaria americana qualquer. Na verdade, era uma banda que eu gostava muito, mas que hoje eu não consigo nem escrever o nome.

Uns momentos atrás eu tava falando da minha adolescência, mas o fato é que ela e tudo o que diz respeito ao meu passado lembra que os meus pais morreram. Morreram.

Sei lá se eu já superei isso agora, mas na época o negócio me derrubou. Foi traumático.

Eu lembro que o meu celular vibrou na mesa até cair no chão. Eu estava distraído ouvindo a já citada "música", mas a queda do aparelhinho me fez notá-lo. Sabe-se lá como, eu me divertia com aquela música de #####, de modo que a queda do telefone foi engraçada. Foi das últimas vezes que eu ri.

Nem lembro quem foi o ############# que me deu a notícia. Se era alguém da companhia de viagem, ou algum parente meu. Eu sei que eu fiquei meio insano. Eu era e sou meio deprimido com a vida, mas achava que esse tipo de coisa não acontecia ou não devia acontecer. E que esse é o tipo da notícia que não se dá por telefone.

Xinguei deus e o mundo naquele telefonema, disse que era mentira, que a ##### do avião tinha que ser segura, que pais tinham que viver para sempre. No fim taquei aquele celular de ##### no chão e ele se espatifou em mil pedacinhos.

Eu fiquei falando pros pedacinhos que era mentira e que eu ia pra casa telefonar pro meu pai. Era o tipo da incoerência, mas tudo bem.



 Escrito por C£C£L às 16h54
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Eu desapareci do lugar que eu dava aula pra nunca mais voltar. Nem me despedi de ninguém, nem lembro se eu tinha mais aulas naquele dia.

Fui mesmo para casa e telfonei mesmo pro meu pai. Eu liguei no celular dele. Sei lá se o telefone ia funcionar nos malditos EUA, mas certamente não sem nenhuma alteração no número. Falou alguma coisa como "número fora da área de cobertura".

Depois eu liguei para ele na empresa, o que era o tipo da coisa estúpida a fazer uma vez que eu tinha ido com eles até o maldito aeroporto, e era óbvio que sendo a empresa no Brasil ele não ia estar lá.

O meu pai atendeu, na secretária eletrônica, e eu pedi a ele para me ligar assim que pudesse, assim que chegasse, o mais urgente possível, porque estavam espalhando boatos de que eles tinham morrido. Só que ele nunca ligou.

Eu liguei para a minha mãe, também. Só que o telefone dela era o de casa mesmo, eu nem lembro o que aconteceu. Mas não consegui falar com ela.

Eu liguei a TV pra dar uma distraída. Eu ia logo ir vendo uns clipes, mas deu um daqueles anúncios de plantão, então eu fiquei assistindo.

Você já sabe o que o plantão noticiou, não? Foi das últimas vezes que eu vi televisão por vontade própria. Engraçado que naquela hora eu não consegui quebrar a televisão. Só uns dias depois, quando comecei a destruir o apartamento inteiro (teve até que fazer umas reformas pra vendê-lo ou coisa do tipo).

O Válter, um amigo do meu pai que cuidou dessas coisas. Na verdade, meus únicos parentes vivos são uma avó-paterna, umas irmãs dela, uns primos do meu pai e os filhos deles se é que eles tem filhos. Não sei se estão vivos ainda, estavam quando os velhos morreram.

Todo esse povo foi no enterro, eu acho. O Válter que me contou desse povo, eu tento lembrar deles vindo me ver, tenho quase certeza que vieram, mas não lembro. Eu não fui no enterro. Sei lá se foi enterro simbólico ou se conseguiram identificar os corpos. O Válter não me contou e eu não perguntei.

Eu estava esperando o meu pai receber o recado e me ligar, ou a minha mãe aparecer em casa, falando que o pai tinha ido lavar o carro. Eu não saí de casa por dias, e dias. Ou foram horas. Ou foram meses. Eu não lembro.



 Escrito por C£C£L às 16h53
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O Válter, na verdade, foi quem me manteve vivo nessa época. Ele era chefe do meu pai ou o meu pai era chefe dele, sei lá. Ele ia lá em casa, fazia comida, tentava me fazer comer, me dizia que tomar um banho era bom, nem que fosse um por semana. De vez em quando vinha a mulher dele. Eu sempre conversava como se meus pais tivessem vivos. "O que o pai e você andam fazendo lá no trabalho", "Será que eles tão curtindo a viagem" e coisas assim. Ele sempre tentava me fazer cair na real, acho que era sutilmente.

Ele perguntou se eu queria ir no cemitério um dia. Disse que os meus pais iam ser enterrados, mas que era pra eu ir só se eu quisesse. Eu disse que eu ia ficar em casa porque tinha que estar lá se os meus pais voltassem de viagem, mas que ele podia tirar umas fotos e mostrá-las para mim depois.

Quando a mulher dele conversava comigo eram sempre uns assuntos casuais, tipo notícias do Brasil e do mundo, coisas de novela, perguntar se eu tava com fome, sede, frio, sono, falar da infância dela ou sei lá o que. Eu raramente usava uma palavra de mais de uma sílaba como resposta.

O Válter já perguntava se eu ia voltar a trabalhar, falava para eu vender o apartamento e ir morar com eles. Nessa hora eu falei das minhas frases mais longas e disse que ia morar no outro apartamento, "sozinho era melhor". Ele não discutiu. O Válter era muito legal.

Daí eu quebrei o apartamento todo, numa hora que eu estava sozinho. Eu fui tomar um copo d'água, coisa que eu estava voltando a fazer por conta própria. Enchi o copo e ia tomando, mas de repente me de uma tremedeira e eu deixei-o cair.

O vidro quebrando meio que me inspirou. Eu ataquei todos os copos, joguei um por um, às vezes dois de uma vez no chão.
Quebrei cadeiras, se é que tinha mais de uma, quebrei a TV com uns pedaços de cadeira, sei lá como eu joguei o monitor do computador pela janela. Taquei uns negócios na parede e encerrei tudo com um chute bem dado no som. Meu dedão do pé ficou doendo muito, por meses, mas eu não quis ir ao médico.

Então, o Válter vendeu o apartamento, colocou o dinheiro todo na minha conta e era uma puta grana, que nem me animava, mas era, tirou quem quer que tivesse de aluguel no outro apartamento, colocou móveis e tudo, me pôs morando lá, e continuava aparecendo vez por outra.

Essa história toda é muito triste mas ####-se, você está acompanhando porque quer. Um dia, do nada, a mulher do Válter morreu. Ele me ligou falando isso. Eu sei lá se faziam dias ou meses que meus pais tinham capotado.

Quando o Válter falou que a mulher dele tinha morrido, eu acreditei nele, falei "meus pêsames e até logo". Ele falou que ia vender a casa dele e que a gente ia arrumar um lugar novo pra morar. Eu falei "Tá" e desliguei.

Nessa eu simplesmente me mantive sentado no sofá. Os dias foram passando. O Válter não me ligava mais. Eu já estava até me alimentando e tudo, de bolachas e comidas fáceis, mas eu comia. Apesar de ter TV e som no apartamento novo eu nunca ligava.

Num determinado dia, eu peguei uma agenda que o Válter havia deixado em cima de uma mesa lá. Sei lá se é a mesma mesa que eu ainda tenho. Tinha uns telefones loucos lá, tipo um de um psicólogo que o Válter conhecia, mas eu queria mesmo ligar pro Válter. Eu estava querendo conversar com ele, normalmente, como adulto civilizado ou coisa parecida.

Eu sei lá, ele podia me arrumar um emprego, ou me dar uma idéia de alguma ocupação.

Vocês não perceberam ainda que o Válter se matou?? Meu, até eu que sou desligado, se estivesse lendo, teria notado. Ele era um grande ############# esse Válter, mas eu resolvi que eu não ia ser ###### igual a ele. Ou eu não era corajoso o bastante pra me matar também, eu não sei.

No que a velha que atendeu falou que ele tinha ido pro saco, eu falei "Ah, se ele aparecer pede pra ele me ligar, é o Gustavo, filho do Ayrton". E desliguei. E saí pra comprar vários e vários pacotes de cigarro. E também bolachas. E Vodka. Eu queria absinto, mas não tinha no mercado.

Álcool de cozinha (é de cozinha, aquele álcool caseiro?) era bem mais barato, mas não pensei nisso na ocasião. Não havia o rígido controle de gastos de hoje em dia. Por que será que meus pais não tinham seguro de vida?

Acho que foi aí que comecei minha rotina atual. Em vez de quebrar a mobília de casa, eu vendi quase tudo. Fiquei com um sofá, duas cadeiras, uma mesa, fora os bagulhos do banheiro e cozinha. Nem deu grana, mas valeu a distração.

Telefone também foi riscado da minha lista de apetrechos domésticos. Eu simplesmente arranquei o telefone da tomada, então por uns meses a conta continuou vindo e cobrando assinatura, então pedi para cancelarem. Deu dó porque o negócio vinha no nome do meu pai, e era legal ver o nome do meu velho uma vez por mês. Mas eu já estava começando a pensar no futuro.

Na verdade eu queria que o Válter tivesse pirado, em vez de morrer. Eu iria visitar ele no manicômio se ele estivesse lá.
Até que ia ser divertido ver todos aqueles loucos. Ainda que fosse bem provável eu ficar com uma puta vontade de ficar por lá.

É pena que a gente não fica louco por opção, se não eu já teria endoidado há muito tempo atrás e estaria curtindo a vida num hospício. Em lugar disso, estou nesse mundo que também só tem maluco, vivendo feito maluco e sendo assaltado várias vezes por mês. Se pelo menos eu não fosse assaltado...

Às vezes eu imagino que o Válter está num hospício e eu vou visitá-lo. E ele fica falando comigo igual aqueles malucos de filme, gritando e tudo mais.

Mas então eu lembro que esses filmes de loucos são todos americanos, embora deva ter algum brasileiro também, mas de todo modo eu peguei raiva de filmes porque o cinema é a marca maior dos EUA. Até que pra quem odeia os EUA eu falo bastante deles...

É #### que esse negócio de eu ter raiva dos EUA, da língua inglesa e de tudo que se pareça às vezes me impede de fazer umas coisas que nem são tão ruins, tipo imaginar o Válter num hospício. Mas a gente se acostuma. Logo eu nunca mais vou citar o nome Estados Unidos. Juro. Juro mesmo. Pelos meus pais mortos.

Não sei como alguém agüenta o meu passado recente. Boa parte do tempo eu acho essa história toda chata pra caramba. Mas quando eu lembro da Natália, todo esse papo de meus pais e de Válter nem parece tão mau.



 Escrito por C£C£L às 16h53
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4. Ano-novo (ou Capítulo Curto)

 

Tive que passar o ano-novo com meu primo, meu irmão e a esposa. Fora o fato de não existirem eles até que são bem legais.
Nem tocaram no meu champanhe. Tomei champanhe no fim de ano, e acho que a última vez que eu havia feito isso foi com meu pai e minha mãe.

Foi quase divertida a minha ceia de ano novo: champanhe e cigarros. Vi uns fogos de artifício da janela. Não são tão divertidos como eram antigamente. Se é que já foram algum dia. Ainda assim foi um dos meus melhores fins de ano. Lá pelas sei lá quantas da madrugada eu já tinha bebido toda a champanhe e comecei a rabiscar umas coisas na parede.

É normal eu fazer isso, por mais que não seja uma coisa normal de se fazer, não foi por causa da champanhe. Se diz "a champanhe" ou "o champanhe"? Não importa. Escrevi coisas do tipo "white #####" e depois lembrei que meus pais tinham morrido em inglês e rabisquei por cima. Acabei escrevendo coisas inúteis como "sorriso metálico", "24 horas aberto", fazendo uns desenhos escrotos e tudo mais. O de sempre.

Umas três da tarde eu acordo com o telefone tocando. Natália.

Não vou dizer que lembro o que ela falou. Mesmo se eu lembrasse não diria. Sei que ela disse alguma coisa que me fez varrer, passar aspirador de pó, jogar todo lixo e tranqueiras no quartinho, limpar a parede com água e sabão (o que foi muito chato e cansativo), deixar minha casa quase apresentável.

Depois tomei um banho, e desci pro supermercado. Não sei o que tem de tão super num supermercado. Não é como se fosse um super-herói dos mercados nem nada. Na verdade, a Natália não trabalhava naquele dia, por um milagre.



 Escrito por C£C£L às 19h27
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3. Ah, a Natália...

 Eu cheguei no mercado que nunca fecha e ela estava lá, na sua habitual não-beleza, vestindo o menos agradável uniforme de trabalho.

- Oi, Augusto, você veio!?

- É, tô aqui. Mas é Gustavo- pensei em mostrar meu R.G., mas achei maldade.

- Ai, desculpa, é que eu perdi mesmo seu nome.

Ela me mostrou o papel do outro dia, com a parte de cima meio rasgada, só dava pra ver o "O" no final, embora o pedaço de "V" que havia sobrado não lembrava nem um pouco um pedaço de "T".

Fiz uma hora, ela terminou o expediente, se trocou (não que tenha melhorado muito) e saímos.

Era como se ainda fosse a noite de Natal. Passaram-se cinco dias, para o mundo talvez. Eu ainda estava no mesmo.

A Natália desatou a falar. Eu fiz que prestava atenção, mas não me esforcei muito. Algo do tipo:

- Olha, no dia do Natal, eu ia te ligar, mas aconteceu uma coisa...

E ia.

-... é que eu tava de rolo com um menino, o Dinélio...

"Que tem a ver rolo com chinelo??", eu pensava

-... mas aquele filho da pu... da mãe!...

-Pode falar "#############".

-Não, é que eu conheço a mãe dele, da igreja, muito...

"#######, a mina conhece a mãe do chinelo, da igreja... Que ##### que eu fui arrumar". Eu me perdia em pensamentos assim.

-... e o Dinélio, com a Fabiana ainda...

Nesse meio tempo entendi. Não era um chinelo. Dinélio. Claro. A mãe queria Dino, o pai queria Hélio. Perfeitamente plausível.

-... e o safado ainda teve a coragem de dizer que não tinha nada comigo!!

A essa hora ela deve ter parado de falar, ou então percebeu que estavamos vagando pra qualquer lado há um bom tempo, sei lá.
De repente eu também me dei conta do mundo a minha volta.

Até então estava pensando: "será finalmente a minha primeira vez de graça?". Eu vinha recorrendo à prostitutas há algum tempo. Nos meus dezoito, tive minha primeira ####, com uma puta. A segunda foi só aos vinte e dois, uns dias depois de os meus pais baterem as botas. Ainda nem rolava orçamento calculado nessa época. Depois comecei a fazer isso a cada seis meses, mais ou menos, sempre recorrendo a umas putas decentes (se é que isso existe).

- E aí, onde a gente vai? - ela perguntou.

- Tava pensando em comer um pão de queijo. - eu disse, o que veio a cabeça primeiro.

-Tá legal.



 Escrito por C£C£L às 19h26
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Chegamos num lugar qualquer, onde tinha pão de queijo. Pedi uns.

- Vocês tem vinho aqui? - perguntei pro caixa.

O ############# disse que tinha! Depois não sabem porque eu sou o maníaco do vinho. Porque só bebo vinho e água nessa vida.
Que ##### é essa, todo lugar tem vinho! Daqui a pouco até o pipoqueiro da esquina me vende vinho. Tá igual cigarro!

Peguei um vinho pra mim, um pra ela e dois pães de queijo pra cada.

Nem lembro direito se a gente ficou conversando ou o quê. Eu comecei a fumar, ofereci à ela, mas ela não quis.

Depois de um tempo ela pediu um trago do cigarro. Fumava toda desajeitada. Tudo bem, eu fumo há dez anos, há três inverteradamente, desde a morte dos velhos, e ainda não sou muito cordenado, mas ela dava raiva.

Eu não sabia se ria ou me revoltava. Foi quando ela derrubou o cigarro no chão que eu me enchi e peguei outro. Ela pegou o cigarro do chão e ia me devolver, aí se ligou, mas não sabia o que fazer com aquele cigarro. Eu peguei da mão dela e apaguei no cinzeiro.

- Aquele convite pra eu ir na sua casa ainda tá de pé? - ela perguntou, o sorriso metálico outra vez aparecendo.

Eu sei lá onde eu estava, mas a pergunta me trouxe de volta ao solo, vindo do espaço sideral (e olha que tinha sido só uma taça do vinho mais caro que eu tomava em meses).

- Natália, querida! Cê vê, justo quando você tá afim não vai ser legal. Tem um primo meu que veio passar o ano novo...- menti, pois minha casa não era lugar para seres humanos comuns - sei lá, ele tá dormindo lá, não vai ser legal a gente aparecer.

Na verdade, minha casa não era das coisas mais limpas. Às vezes eu até ia pra outro lugar tomar banho, quando queria um decente.

Talvez eu devesse separar uns trocados pra chamar uma faxineira lá, uma vez por mês ou a cada dois, sei lá. Era mais ou menos esse o intervalo de tempo no qual eu mal e porcamente passava um aspirador lá. Mesmo que eu só tenha esse aspirador porque ele era dos meus pais.

Não sei se digo que a minha vida se divide em antes da morte deles e depois da morte deles. Eu sei que larguei meu único emprego até então, pra viver do que eles me deixaram. Eu diria que fui bastante afetado.

Eu era professor de inglês ou algo do tipo. Não que fosse incrível, mas enganava. Os dois já tavam com uma idade razoável, seus cinqüenta e poucos. Eu vinte e dois.

Acidente de avião. Que ia pros malditos Estados Unidos! Desde então peguei raiva de tudo que vinha de lá. Comecei largando das aulas de inglês. Foi mais ou menos aí que tive a idéia de viver do dinheiro que eu ganhasse com o apartamento.

Tudo dos Estados Unidos não prestava. Filmes, músicas, livros etc. Eu meio que parei com isso tudo. Sério. Só ouço música clássica agora. E ando pela rua. Principalmente a noite. E fumo e bebo vinho. E sou assaltado. Logo que meus pais foram obrigados a me deixar, fazia tudo isso de carro. Até que resolveram roubar o carro, e então, uma vez que meu orçamento não permitia, não comprei um novo. Meu orçamento havia cortado os pagamentos do seguro uns meses antes.

Três anos depois, lá estava eu, comendo pão de queijo com a caixa do supermercado, na ante-véspera do ano-novo. Tudo bem. Na ante-véspera do ano anterior eu nem lembro o que eu fiz. Logo, esta era melhor. Não podia levar a Natália pro meu chiqueiro, por pior que ela fosse.

A coitada convidou-nos, eu e meu primo para passar o ano-novo com ela, disse que tinha uma vizinha que ia adorar conhecer o meu primo e, fora o fato do meu primo não existir, até que eu cogitei a hipótese.

Tive que dizer que não podia, que meu irmão (tão fictício quanto primo) ia vir com a esposa, etc. Ela fez um silencio magoado. Depois disse:

-Gustavo...

-Eu - foi minha brilhante fala.



 Escrito por C£C£L às 19h24
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Depois desse grande diálogo, ela me beijou.

Foi estranho. Senti um pouco de nojo, não sei se pela falta de costume, pois já devia fazer bem uns anos que ninguém me beijava, ou se era porque eu nunca havia beijado uma mina tão sem graça, pra não dizer feia (porque apesar do que essa cretina fez pra mim, eu não consigo chamar ela de feia).

Sei lá se foi a primeira vez que beijei alguém de aparelho, pessoalmente não lembro de outra. Depois de um tempo relembrei como é que era um beijo e consegui alguma coisa razoável. É difícil explicar.

Só pensava na Natália como uma possível primeira transa com uma não-prostituta. Não tinha certeza se isso me animava ou não.
Mas tinha sido divertido ganhar aquele beijo, por mais ridícula que ela fosse. Eu, o ermitão, sendo beijado pela garota do supermercado. Dava um bom filme, se é que já não fizeram um assim. Faz tempo que não vejo um filme. Muito, muito tempo.



 Escrito por C£C£L às 19h23
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2. Ah... O Natal

Sobre aquela que me largou tenho muito o que dizer. O nome dela é Nátalia. E eu a conheci no dia de Natal. Sei lá se foi coincidência ou se fiz de propósito.

Estava perambulando pela noite, como sempre faço desde que meus pais morreram. Desde a morte deles minha vida deixou de ser qualquer coisa próxima de normal. Por exemplo, na noite de Natal, eu estava perambulando pela rua como num dia qualquer.
Esse mês estava excelente, só tinham me assaltado uma vez, e já era dia vinte e cinco.

Num certo momento, passei em frente a um supermercado. Desses vinte e quatro horas e tudo mais. Às oito da noite do dia de Natal. O supermercado estava aberto! Fiquei puto com aquilo.

Entrei naquela #####, determinado a falar com o gerente, reclamar daquela situação, gente ter que trabalhar na noite de Natal! Que pouca vergonha, fora da realidade!

Então comecei a reparar numas camisetas, lembrei que não havia comprado meu jantar de Natal ainda. Na verdade, se aquele mercado não estivesse criminosamente aberto aquele dia, eu nem ia ter jantar de Natal.

Escolhi um pacote de bolacha, um vinho que me parecia bom e barato (e que depois se mostrou apenas barato) e a caixa de cigarros costumeira.

No caixa, comecei a conversar com a atendente. Normalmente eu não converso com ninguém, mas vez ou outra tenho uns espasmos e começo a conversar com quem quer que apareça pela frente. Foi por causa disso que descobri da história do Marcelo e da Marcela, uns dias atrás. Foi assim que eu conheci a Natália.

- Oi, boa noite- eu comecei.

--Boa noite, Feliz Natal - ela foi a primeira a me dizer feliz Natal naquele ano (descontando um porteiro do meu prédio, eu acho).

A Natália estava longe de ser grande coisa. Não dava para dizer que ela era bonita, a não ser que você se esforçasse.
Simpática, quando muito.

- Que puta sacanagem com vocês, né? Ter que trabalhar bem no dia de Natal! Eu tava passando aqui em frente e não me conformei com o maldito mercado aberto...

-É verdade, uma exploração isso... mas fazer o quê, né? É isso ou a gente perde o emprego. Tem que vir de segunda a segunda, faça chuva, faça sol.

-Mas talvez haja emprego melhor do que esse. Como é seu nome mesmo?

-Natália - ela me disse, com aquele sorriso de aparelho. Como alguém não é bonita sem ser feia, eu ficava me perguntando.

-Então, Natália, você não pensa em arrumar coisa melhor? - sei lá por que eu perguntei isso mas interessou tanto a menina que ela ficou um bom tempo com a caixa de cigarros na mão sem lembrar de passar o código de barras no leitor. Como se eu tivesse dito uma coisa completamente absurda.

-E como eu vou fazer isso? Vou largar esse emprego...?

"Deixa eu falar, mina, caramba!"

- Na certa você não trabalha o dia todo. Continua aqui e procura alguma coisa. Eu posso te ajudar- menti, porque ela era tão tonta que dava até um pouco de pena.

-Nossa, você é tão legal, moço - ela me disse enquanto ia passando distraída as compras do próximo cliente. Sei lá se ela passou direito.

Nessa hora eu tava naqueles ataques de insanidade que me ocorrem de vez em nunca. Alguém me chamar de "legal" era coisa de uma vez por ano, ou a cada seis meses, quando muito.

- Olha, Natália, eu vou ter um fim de Natal solitário. Meu jantar de Natal, minha ceia tá aqui- eu disse, mostrando as sacolas. - Se depois que você sair daqui você tiver afim, a gente pode arrumar uma ceia melhor.

Aquilo soava estúpido como qualquer coisa que sai da minha boca. Mas ela não era mesmo grande coisa.

- Você tá me chamndo pra ir pra sua casa... - sorriso metálico de novo - Ih, não sei, não.

Todo meu oxigênio e saliva tinham acabado, de modo que, uns segundos depois, ela teve que falar outra vez.

- Olha, faz assim, me passa o seu telefone, mais tarde eu te ligo.

E eu passei. Ataque de insanidade, é a minha única explicação.

É claro, como você já deve esperar, que ela não me ligou. E a minha ceia de Natal foi bolacha (pelo menos era recheada - afinal, era Natal), vinho, e cigarros.


Era a véspera da véspera, dia 30 de dezembro, quando ela me ligou.

Eu não estava. Ela deixou recado na secretária eletrônica.

- Alô. Tudo bem? Sou eu a Natália... olha, você,... puxa, esqueci o seu nome...

Que esperta que ela era! Sendo que não dava pra ela esquecer o meu nome que tava anotado do lado do telefone.

-...eh, é Augusto, não é?...

A ###### errou meu nome, ainda. ####!

-... então, olha. Se você não for fazer nada hoje a noite, passa lá no mercado depois das dez, a gente pode ir tomar um café, tá bom? Tchau.

A ###### me chamou pra tomar um café. E eu fui, lógico. Não que eu tivesse muitos motivos. Mas também não tinha nenhum pra não ir.

Desde a morte dos meus pais a minha vida era cheia de estranhezas. Essa mina podia ser a primeira não-puta que eu catava em muito tempo. Não que eu desse a mínima.

Meu pai e minha mãe morreram e me deixaram dois apartamentos. Um de dois quartos, e outro de um quarto. Eu vendi o de dois quartos por cem mil reais, e fiquei com o de um quarto. Com os cem mil eu posso viver a minha vida toda. Gastando coisa de
um pouco mais de 300 reais por mês, sendo uns 200 de condomínio, eu me garanto com três mil e seiscentos reais por ano. E assim eu posso viver mais uns trinta anos, o que pra mim está mais que bom. Dizem que não dá pra viver com isso, mas dá.
Tranqüilo. E olha que sou freqüentemente assaltado



 Escrito por C£C£L às 19h20
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Perdido (by Carneva)

Tanto que tenho até reservado um pouco do meu orçamento para os assaltos. Está lá: assaltos - 15 reais. Se bem que no mês dos três assaltos eu acabei gastando mais com isso: primeiro assalto, sete reais; segundo assalto, cinco reais e um isqueiro (desde então uso fósforos); terceiro, seis reais e um maço com três cigarros. Foi o último dia do mês que saí com mais de três reais de casa. Mas voltemos à Natália.



 Escrito por C£C£L às 19h18
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1. Introdução, ou quase

 

Era só outra noite, igual as outras. Eu sei que é um começo óbvio, mas não posso fazer nada.

Eu era só mais um perdido caminhando pela rua. Depois de três assaltos no mesmo mês, eu já nem me importava. Nem dinheiro eu estava carregando, mas sempre podem roubar as roupas, tênis, dignidade. A gente tem de estar preparado para tudo.

Ouvi um grito de mulher. "Deve estar sendo estuprada", pensei, de sacanagem.

Não é o tipo de coisa que se pense de sacanagem, mas no meu estado, eu até me perdoei. Desviei a mente. "Devem só estar roubando ela". Só isso.

Outro grito. Dessa vez veio acompanhado de um "socorro" sufocado. Foi mais um "so-co-mmmm...". Esquece.

Continuei caminhando. Da esquina vejo a cena. Um homem segurando uma garota. Bonita. Com uma mão ele segurava os dois pulsos dela. Com a outra tapava boca. Certamente faltavam mãos para abrir a calça, de qualquer um que fosse.

Parei, respirei. Eu tinha de fazer alguma coisa. Não podia presenciar aquela cena sem nenhuma reação. A garota tinha seus gritos sufocados, enquanto o sujeito tentava abrir a sua calça com a mão que segurava os pulsos da moça.

Eu estava quase partindo para lá, quando surge outro homem. Esperei que ele fizesse alguma coisa. E ele fez.

Levantou a garota do chão e tapou sua boca, deixando o outro com uma mão livre. E ele também tinha uma mão livre, tentando baixar a calça dela.

Se contra um eu já havia feito nada... "Grande utilidade a minha", eu pensava quando ouvi o som: uma pedra havia atingido o primeiro homem na cabeça. Ele se virou para ver de onde poderia ter vindo. Só então percebi.

Na minha indecisão de ir ajudar ou sofrer de longe, estava completamente visível para eles, o que não acontecia com quem quer que tivesse arremessado a pedra.

Obviamente, o sujeito pensou que fosse eu o atirador de pedras. Veio na minha direção. A careca brilhando a luz da lua. Os dentes e o branco dos olhos. Era tudo o que eu via.

"Ótimo! Escapei do quarto assalto no mesmo mês, para ir para minha primeira morte do mês...", eu pensava, quando a segunda pedra o atingiu, esta no peito. Antes que ele pudesse se virar outra pedra veio em nossa direção, esta vindo direto contra a minha barriga.

Caí no chão, de onde vi boa parte do restante.

O careca se virou e viu um terceiro homem, o verdadeiro atirador de pedras, agarrando o segundo pelo pescoço, e forçando-o a soltar a moça. Este terceiro homem tinha uma faca ou canivete, que agora ele apontava para o pescoço do homem no qual ele dava uma gravata.

O homem que havia me ameaçado, percebendo isso, fugiu rápido para o lado contrário ao do homem com a faca.

- Belo comparsa você arrumou! - disse o homem da faca para o segundo estuprador. - Deixou você pra ser trucidado sozinho na cadeia...

O segundo homem ainda tinha a faca bem apertada contra seu pescoço quando eu finalmente me levantei para seguir o meu caminho.

- Eu queria ter ajudado - eu disse, ofegando.

-Tudo bem, já está tudo controlado - me disse o homem da faca.

Nem ao menos se desculpou por ter me apedrejado! O filho da #### da mãe dele!

Sabe o que ocorre com esses dois agora? Marcelo e Marcela, os nomes deles. Foram juntos à polícia, começaram a sair, namorar. Estão noivos, ouvi dizer.

O meu nome é Gustavo. Não que isso venha a ser de grande importância, mas é útil para perceber quando se referem a mim.

Eu podia estar no lugar daquele escroto. Eu podia ter salvado a mina. Tinha totais condições. A Marcela, gatinha...

Outro dia os vi, no prédio em frente ao que eu moro. Não os cumprimentei. Seria muito legal, não? Algo do tipo: "Oi, eu sou o cara que presenciou a sua tentativa de estupro, tudo bem?"

E naquele dia do não-estupro, do quase-estupro, eu não estava bem. Eu estava há uns tempos muito mal, porque a ##### que foi a coisa mais próxima que eu já tive de uma namorada havia me largado.

Marcelo e Marcela. São uns belos de uns filhos da puta. Melhor dizendo, uma bela de uma ############# e um feio de um #############.

Não duvido se ele não armou aquele estupro que não foi estupro pra catar essa mina. Por mais absurdo que isso pareça.
Afinal, vindo de mim, é uma teoria aceitável. Só pra justficar o fato de eu não ter feito ##### nenhuma.

 



 Escrito por C£C£L às 15h34
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ARCANOS
Capítulo 2:
Seis de abril de 2000.

- Você é um belo de um #############, Kadu ! Como foi falar pra Geni que eu e o Neguinho lançávamos no colégio ?
- #####, meu, na boa, eu sou o representante de sala ! É o meu dever !
- Vai se ##### !
Foi a primeira vez que Kadu sentiu a mão de outra pessoa se fechar contra seu rosto. Isso significava que ele teria que brigar com o Nathan, que de certa maneira, poderia ser considerado o garoto mais perigoso do colégio Doutor Edmundo de Carvalho.
O Maximo que Kadu sabia sobre brigas era que a melhor defesa era o ataque. Partiu violentamente para cima de Nathan, um rapaz corpulento, negro, de cabelos raspados.
Kadu foi subjugado com grande facilidade. Nathan não se contentou em derrubá-lo no chão. Agarrou-o pelas pernas e o arrastou pelo pátio do colégio. Muitos alunos começaram a rir da cara de desespero de Kadu, e isso fez com que ele deixasse rolar uma lagrima sobre sua face.
- Que mane! - Nathan apontava o dedo para o rosto de Kadu, caçoando dele.
A humilhação, a fúria, a dor, tudo isso fez com que a dor de cabeça insuportável que o fizera desmaiar ha quatro anos atrás retornasse. Novamente Kadu caiu de joelhos no chão.
- Ei, vejam só, o maluco ta tendo um ataque! Vendo muito Pokémon, bichinha?
De repente Kadu levantou a cabeça e lançou um olhar furioso a Nathan. O sorriso no rosto do garoto desapareceu ao seus olhos se encontrarem com os de Kadu. Por um segundo, Nathan poderia ter jurado que as íris dos olhos do garoto ajoelhado ao seus pés tornaram-se vermelhas.
Nathan levou suas mãos a fonte. Sentiu uma dor de cabeça terrível. Tudo e sua volta assumiu uma coloração avermelhada. Os alunos não estavam mais rindo da humilhação de Kadu, mas dele sim próprio. E para seu terror completo, os alunos não possuíam rostos, apenas sorriam. De alguma maneira, riam dele.
Kadu se levantou, e agora parecia muito mais amedrontador do que a dois segundos atrás.
"Você, Nathan, foi um menino muito mau com o Kadu!". Nathan ouvia o garoto sussurrando essas palavras enquanto caminhava vagarosamente, pé ante pé, na sua direção, mas sua boca não se movia enquanto ele falava. "E agora vai receber o que merece!¿
Ele simplesmente não pode se mexer. Estava completamente apavorado. ao chegar a menos de um passo de distancia de Nathan, Kadu golpeou os olhos dele com os dedos formando um "V". Nathan não viu mais nada. Só sentiu o sangue quente escorrer pela face. Começou a gritar. Gritava muito mas os alunos continuavam rindo. Depois sentiu seu braço esquerdo ser arrancado, seguido pelo direito. Nathan recebeu uma rasteira que o fez cair. Gritava, chorava, implorava por piedade mas Kadu continuava a atacá-lo.Nunca pensara que fosse sentir tamanho desespero. A facilidade com que seu agressor arrancava-lhe os membros era algo que não fazia sentido. Mas a dor era real. Sentiu sua perna ser decepada e a outra, amassada, como se um carro tivesse passado por cima dela.
Por fim, ele desmaiou apos Kadu enfiar a mão no seu abdômen e arrancar suas vísceras.

- Dona Graça, Dona Graça, o Nathan desmaiou no pátio.
- O que ?
- É verdade ! Ele e o Kadu tavam brigando, de repente o Kadu caiu de joelhos, com a mão na cabeça e depois, o Nathan desmaiou !
- Para de falar bobagens, Murilo !

- É muito estranho ! O garoto esta em coma mas o corpo não apresenta qualquer sinal de lesão alem de pequenas escoriações causadas pela queda.
- Você acha que ele teve algum ataque epilético ou coisa que o valha, doutor Rubens ? Hoje em dia, esses vídeo games modernos mandam crianças para o hospital !!!
- Eu duvido que tenha sido um ataque epilético causado por vídeo games ! E não ha nenhum sintoma de ataque epilético ! Segundo me informaram, o garoto estava brigando quando ele desfaleceu. Deve ter sido alguma coisa relacionada à briga !
- Mas pelo que os garotos disseram, ele estava levando a melhor na briga !
- A convulsão pode ter sido causada por alguma reação nervosa a situação. Mesmo assim, é muito estranho !



 Escrito por C£C£L às 15h21
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ARCANOS
Capítulo 1:
Quinze de julho de 1996.

Uma garoa fina caia sobre o telhado da casa de Carlos Eduardo Marino, ou apenas Kadu. Seu quarto ficava no segundo andar de um sobrado. O andar de baixo era reservado a cafeteria de seu pai, Antonio Carlos Marino.
Kadu ainda estava acordado, escutando os carros passarem pela Rua Clélia, na Lapa.
Seu irmão, Kevin, dormia pesadamente na cama ao lado. Ambos dividiam o mesmo quarto, e a janela dava para o lado da rua.
Kadu tinha apenas dez anos, e seus maiores problemas no momento era terminar o jogo Super Mario World pela terceira vez e completar o álbum de figurinhas dos Cavaleiros do Zodíaco.
Kadu era um garoto saudável, cabelos lisos negros, em forma de tigela, olhos azul, nem magro nem gordo, boas notas no colégio e interesse parcial nas garotas da sua classe. Ele tinha a pele bem branca e era de estatura normal para a idade. As vezes era acometido por fortes dores de cabeça e nessa noite a dor estava tornando-se cada vez mais insuportável.
Quando o garoto começou a lacrimejar e choramingar de dor, decidiu levantar-se e ir se queixar a mãe, Helena Correa Marino, na esperança de que ela pudesse amenizar seu martírio. Porem, ao se levantar bruscamente da cama, seus pés fraquejaram, suas pernas dobraram e ele caiu no chão.
Tudo que Kadu pode ver foi um grande clarão.

"Kain, é chegada a hora ! Não ha mais como negar seu destino ! Seu sangue o convoca ! É o retorno dos primeiros governantes do Planeta. É o retorno dos Arcanos !"



 Escrito por C£C£L às 15h10
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Histórico
20/06/2004 a 26/06/2004
13/06/2004 a 19/06/2004


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